“Devoção”

Contributor Marcia Kling

“Devoção” is a documentary photo book of cultural patrimony of popular religious celebrations; it was photographed in seven states of Brazil. For 14 years the photographer Isabela Senatore captured images, which shows groups and individuals devotion passing through heads, hands, knees and feet. The book has 116 pages with 111 images, bilingual Portuguese and English.

Devoção é um livro de fotografia documental de patrimônio cultural de festas religiosas populares fotografado em sete estados Brasileiros. Por 14 anos a fotógrafa Isabela Senatore capturou imagens que revelam a devoção coletiva e individual passando pela cabeça, mãos, joelhos e pés. O livro tem 116 páginas com 111 imagens, bilingue português e inlglês. Devoção ganhou dois prêmios internacionais categoria Fotografia/Arte. runner up – London Book Festival runner up- New England Book Festival

“Devoção” got two international awards category Photography/Art

runner up – London Book Festival-runner up – New England book Festival

In 1997, in a small room in the backyard of my grand mother Catharina’s house, in the neighborhood of Cambuí, in the city of Campinas, São Paulo, I set up my black and white photography darkroom, which marked the start of my studies and discoveries in this magic world.

My grandma Rina, as she was better known, was a person of great faith and religiousness. As my darkroom was at the beginning, she gave me the first image of a saint to hang on the wall… and she kept on giving. There were saints all over the lab. Each month she would come to me smiling and holding another new one.

I thought it was lovely and always thanked her for her intention on protecting me. When I prepared the chemistries for development, my grandmother would incredibly come along with holy water and put a few drops into the trays, and I thus enlarged my first photographs with a certain divine power.

I used to spend hours in my lab, and whenever I opened the door for a break, she was always walking and praying around the backyard with a rosary in her hand. Then, once I asked: -Why do you pray so much, grandma? And she replied: -“People need to be blessed.”

I admired her faith, and that inspired me to start seeking situations where people demonstrated to have that strong, heartfelt sense of love, faith and devotion. After 14 years of research and image capturing,

I introduce you this photography book which portrays the Brazilian people developed with drops of Devotion. I dedicate this book to my grandma Rina who now lives in heaven. Isabela Senatore

Dedicatória Em 1997, em um quartinho no quintal da casa da minha vó Catharina, no bairro Cambuí em Campinas, São Paulo, montei meu laboratório de fotografia preto e branco; o início de meus estudos e descobertas nesse mundo mágico. Minha vó Rina, como era chamada, era uma pessoa de muita fé e religiosidade.

Iniciando a montagem do laboratório, ela deu-me a primeira imagem de santo para pendurar na parede e… não parou mais. Tinha santo para todos os lados. Todo mês ela vinha sorrindo com mais um. Eu achava bonito e sempre a agradecia pela intenção em proteger-me. Minha avó sempre colocava gotas de água benta nas químicas de revelação e assim eu ampliei as minhas primeiras fotografias com certa força divina.

Eu ficava horas no meu laboratório e quando abria a porta para intervalos ela estava sempre andando e rezando pelo quintal com o terço na mão. E eu perguntava: -Por que você reza tanto, vó? Ela respondia:

– “As pessoas precisam.” Eu admirava a sua fé e foi daí que surgiu a minha inspiração, começando a buscar situações onde as pessoas demonstravam ter aquele sincero e forte sentimento de amor, fé e devoção. Depois de 14 anos de pesquisas e capturas de imagens apresento esse livro de fotografias que retrata o homem brasileiro revelado com gotas de Devoção. Dedico esse livro a minha vó Rina que vive agora lá no céu. Isabela senatore

Isabela Senatore Faz Uma “Promessa” Primeira viagem em um ônibus, não muito tempo atrás, Salvador para Cachoeira, “Nossa Senhora da Boa Morte”, muitas cantorias, rezas, bandeiras brancas que voam, a Virgem levantada para o céu, muitos seguidores, muitas pessoas, todos acreditando, muita devoção, tudo acontecendo nas ruas, na igreja, dia e noite, flores desenhando o caminho.

Em novembro uma visita ao Padre Cícero, o “santo” que traz milhões de peregrinos agradecidos a Juazeiro do Norte a cada ano. Em seguida, outra viagem de ônibus, outro agosto, outro milagre; em São Luiz do Maranhão indígenas esquentam seus tambores sobre o fogo, reverberando maiores intensidades de som para a noite, enquanto os homens dançam com as máscaras de touros em suas cabeças, celebrando o milagre da ressurreição.

De volta para o ônibus, 12 horas dentro da noite, atravessando o sertão baiano até avistar uma pedra enorme no meio de uma planície, um rio nas proximidades. Lá na madrugada, uma pequena estação branca, nenhum sinal, um cão, lugar calmo pouco antes de um milhão de peregrinos que vieram a pé, de carro, de caminhões, e por charretes puxadas por cavalos para um lugar onde o monge, Francisco, mostrou grande compaixão aos pobres e criou milagres, Santuário do Bom Jesus da Lapa.

Ao ar livre e em ambientes fechados, na caverna entre as estalagmites e estalactites, Isabela mergulha meio à multidão, magneticamente atraída por um rosto, um gesto, e um momento em que a mistura de luz e forma, tecido e carne geram um momento de revelação.

Ela antecipa os segundos, este fragmento de vida, os cliques da câmera e dentro de um pequeno quadro, milhares de expressões exaltam um tempo de vida com Deus. Sempre na frente da procissão, Isabela acompanha a luz, os encantamentos, a fumaça, as esperanças silenciosas e desesperos dos devotos. Inspirada pelas músicas, risadas, e as orações que se estendem ao sol e às estrelas, a energia de Isabela está sempre alimentada. Uma outra fotografia, Isabela vê e conecta-se com uma mulher que segue sobre os joelhos machucados até o seu destino, longas escadarias além das multidões esperando suas voltas para confessar, para agradecer, para compartilhar e para suplicar, para o altar dourado onde Deus a espera. Um homem aparece com o filho.

Eles passaram quatro dias caminhando para essa caverna sagrada com muitas pessoas que levam as suas “promessas” para agradecer o milagre concedido. O homem com os pés enfaixados segura seu filho pela mão na pia baptismal e espera. Isabela fala com o homem e seu filho, ela começa a fotografar, ela se aproxima, mais perto do que o sacerdote, tão perto que, no único instante do disparo do obturador, os grandes extremos da vida são revelados, a dor, a alegria, tristeza, desgosto, e o êxtase final.

Aí está: está tudo lá. Isabela fez uma longa viagem de ônibus; sua avó a preparou para esta viagem, esta missão. Agora, através de muita dedicação e fé, ela tem uma visão sobre um mundo que é tão sensível visto em suas fotografias que nós, como espectadores experimentamos o dom da revelação e nos encontramos em um lugar melhor.

Jane Tuckerman Professora Emérita The Art Institute of Boston – Lesley University Cambridge, Massachusetts

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